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"Nada é permanente, exceto a mudança" – Heráclito

Arte e gênero: mais que uma exposição, uma reflexão

A exposição Arte e Gênero: cruzamento de olhares, que toma forma no espaço cultural do Instituto Cervantes, não é apenas um conjunto de obras multimídia, é algo que convida o espectador a pensar sobre a realidade e o comportamento humano, sobretudo sobre questões de gênero.

Performance na Espanha, por Beth Moysés

A instalação – que teve início em 31 de março e se estende até este sábado, dia 28 de abril – tem curadoria da espanhola Margarita Aizpuru e expõem obras da artista brasileira Beth Moysés e da artista espanhola Marisa González.

Se trata de uma exposição nada convencional que abre espaço à reflexão histórica por meio das diferentes potencialidades e meios de se fazer arte. “Desde o final dos anos 60, as mulheres têm feito ótimos trabalhos artísticos que revolucionaram o mundo da arte contemporânea. Há uma coincidência entre renovações do mundo da arte e os novos movimentos de mulheres”, afirma a curadora.

Declaradamente feminista, Margarita trabalha há 20 anos com mulheres, tanto espanholas quanto estrangeiras. “Meu trabalho consiste na confluência da arte com o trabalho das mulheres em diversos meios: vídeos, fotos, performance, esculturas, pinturas, etc. Trabalho com mulheres que tenham, além de consciência artística, consciência da discriminação de gênero”, complementa.

A exposição foi precedida por uma performance idealizada pela artista brasileira que já efetuou intervenções em outros lugares do mundo, como por exemplo em Salamanca, na Espanha. “Grupos de mulheres nuas manipularam 40 kg de massa de batom vermelho para simbolizar a violência. Foi uma forma de expressar o que elas sentiam em determinada situação, e estas manipulações estão gravadas e disponíveis na exposição”, afirma Beth.

Performance na Avenida Paulista

A manifestação em São Paulo aconteceu na Avenida Paulista, em frente ao Instituto Cervantes, e durou aproximadamente 30 minutos. Mulheres vestidas de branco, feridas nos rostos (maquiadas), configuraram a cena de violência, e simbolicamente representaram o que haviam sentido em algum momento da vida. “Todas as participantes desta performance foram escolhidas a dedo, algumas já passaram por situações de violência e outras se solidarizaram com a causa”, completa Beth.

Enquanto a artista brasileira realiza performances e trabalha com objetos, a artista espanhola propõe questionamentos sobre mulheres em diferentes sociedades e culturas, por meio de fotografias, textos e vídeos.

Um de seus trabalhos é sobre as mulheres Filipinas que trabalham em Hong Kong como domésticas. “Elas residem na casa dos chefes e tem apenas um dia livre na semana. Neste dia elas se reúnem no centro financeiro e comercial da Hong Kong para comer, dançar, rezar, jogar cartas e reviver suas raízes. São aproximadamente 200.000 mulheres que trabalham lá e enviam todo o seu dinheiro para a família”, diz Marisa.

Canga, mulheres Africanas, por Marisa González

“Nas Filipinas entrevistei os familiares, maridos, filhos e irmãs destas mulheres. Contavam como se sacrificavam por eles. E lá, há agências que anunciam nos edifícios para atrair as jovens, dizendo: procuram-se jovens entre 1,30m e 1,60m de altura, de 53 kg a 60 kg, que falem inglês e que já sejam formadas em cursos superiores. Isto para trabalhar como domésticas em Hong Kong. É uma tragédia”, completa a artista, que trabalha há 40 anos com arte, afirmando que seu trabalho não se resume apenas ao recorte de realidades.

Além de entrevistas, fotografias e vídeos, ela faz um intenso trabalho de pesquisa e de coleta de depoimentos, visitando os lugares envolvidos e propondo reflexões. “Um trabalho recente que trago é sobre as mensagens nas cangas das mulheres no Leste da África. A parte dos desenhos coloridos contém um texto, uma mensagem que pode ser social, política, ou até mesmo aforismos”, ressalva Marisa.

Completa ainda que são frases intencionais, como por exemplo: “se há problemas com maridos, as mulheres compram telas e criam, e quando eles chegam a casa, estendem as cangas para lerem. São muçulmanas e não podem se expressar de outra forma. Eles não as deixam, não as respeitam. Alguém certa vez me disse: este é o princípio do Facebook, porque contam suas mensagens e leem as dos demais”.

Alguns links:

Página de Marisa González

Página de Beth Moysés

Página do Instituto Cervantes

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Publicado às abril 27, 2012 por em Cultura e marcado , .

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